   # Cinco coisas que você deveria saber sobre os testes de anticorpos para COVID-19

 

 

      MBE em foco - Volume 6, Issue 13 

Referência: [Cochrane Database Syst Rev. 2020 Jun 25;6:CD013652](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32584464/)

A testagem por RT-PCR para COVID-19 tem custos variáveis, às vezes um longo tempo até a obtenção do resultado e valores preditivos decepcionantes, o que leva à esperança de uma testagem que seja mais rápida, mais barata e que possa diagnosticar de maneira mais acurada os indivíduos sintomáticos e aqueles previamente expostos ao vírus. Uma revisão sistemática recente do grupo Cochrane fornece bastante detalhes sobre a acurácia diagnóstica de vários testes de anticorpos para COVID-19 comparados à RT-PCR como padrão de referência, mas peneirar um documento de 310 páginas para descobrir o que ele significa para a prática clínica é desafiador. Então, aqui vão as cinco lições mais importantes sobre a testagem de anticorpos contra COVID-19 para a prática clínica:

**1. A testagem de anticorpos não é útil para o diagnóstico da infecção ativa.**

As sensibilidades estudadas tanto para a IgA quanto a IgM, IgG, os anticorpos totais ou a combinação dos testes de IgM e IgG foram todas de menos de 30% na primeira semana após o início dos sintomas. Como refresco para a memória sobre os conceitos da MBE, a sensibilidade descreve o quão bom um teste é para a detecção de uma doença quando ela está presente, e é usada para descartar a doença porque, se o teste não a detectar, é porque ela não deve estar lá. Uma sensibilidade de 30% não é boa, e se traduz em muitos resultados falsos negativos. A testagem dos anticorpos não pode ser usada para se descartar a infecção ativa.

**2. A testagem de anticorpos é, na melhor das hipóteses, moderadamente útil para a se diagnosticar uma infecção prévia, mas a probabilidade pré-teste (prevalência e sintomas) é crítica para acurácia do teste.**

O melhor cenário para a testagem dos anticorpos IgG nesta análise foi uma sensibilidade de 88,2% e uma especificidade de 99,1% quando os pacientes foram testados de 15 a 21 dias após o início de sintomas. Assumindo-se uma prevalência de 50%, essas características do teste se traduzem em um valor preditivo positivo (VPP) de 99% e um valor preditivo negativo (VPN) de 89%, o que parece bastante bom. No momento da edição deste boletim a taxa dos casos era de 2,7% no condado de Miami-Dade, na Flórida, uma localidade que recentemente ganhou bastante atenção da mídia pela sua alta prevalência (se a taxa de casos é realmente igual à prevalência é uma outra conversa). Para uma prevalência de 2,7 o VPP é de 73%, o que leva a cerca de 14 resultados falsos positivos em 1000 testes -não tão bom. O VPP e o VPN levam em conta a probabilidade pré-teste (frequentemente a prevalência), o que é criticamente importante quando se considera a confiabilidade do teste. Essa probabilidade pré-teste, entretanto, pode refletir mais do que apenas a prevalência geográfica. Por exemplo, uma instituição de longa permanência para idosos ou uma escola com um surto de COVID-19 podem ter uma prevalência de 50% ou mais, mesmo se as prevalências da cidade ou do estado forem baixas. Da mesma forma, uma população assintomática tem uma probabilidade pré-teste mais baixa e, portanto, a testagem levará a mais falso-positivos do que se for testada uma população sintomática da mesma distribuição geográfica.

**3. Nós não sabemos exatamente o que fazer com os resultados positivos de um teste, especialmente quando a prevalência é baixa.**

Para uma região de baixa prevalência como Charlottesville, na Virgínia, onde as taxas de casos eram de 661 por 100 mil habitantes no momento da elaboração deste boletim, o mesmo teste positivo teria um VPP de 40%. Obviamente, isso significa que um teste de anticorpos positivo resultaria em falso positivo com mais frequência que em um positivo verdadeiro. Diagnosticar de maneira equivocada um caso de COVID-19 pode não acionar tanto os alertas quanto a ideia de deixar passar casos reais existentes, mas certamente tem consequências importantes. Além disso, quando os resultados dos testes são realmente positivos, isso significa que a pessoa ainda está contagiosa e precisa se isolar por 10 dias, após os quais seus familiares precisarão se isolar por mais 14 dias? Ou isso significa que a pessoa está imune? Ainda não há respostas claras para estas perguntas.

**4. Provavelmente podemos confiar em um resultado negativo de um teste de anticorpos contra COVID-19 se a prevalência for baixa.**

Os testes de anticorpos contra COVID-19 têm melhor desempenho quando o resultado for negativo e a probabilidade pré-teste for baixa. Para uma prevalência de 2,7%, esperaríamos um VPN de 99%. Podemos ter bastante certeza de que um paciente com teste negativo não terá sido exposto, desde que a amostra do paciente tenha sido coletada pelo menos uma semana após o início dos sintomas, e idealmente entre 15 e 21 dias após o início dos sintomas.

**5. A testagem dos anticorpos fora do intervalo de 15 a 21 dias após o início dos sintomas produz resultados menos confiáveis.**

A testagem foi avaliada durante vários intervalos dos dias 1 ao 35 após o início dos sintomas. Todas as características dos testes foram piores que o melhor cenário anteriormente descrito para todos os testes de anticorpos analisados nesta revisão sistemática quando os pacientes tiveram amostras coletadas fora da janela de 15 a 21 dias. Portanto, a conclusão é que, se você não estiver testando dentro da janela de 15 a 21 dias após o início dos sintomas, os resultados serão ainda menos confiáveis.

Como recém-descobridores do musical Hamilton – sim, é difícil acompanhar toda a literatura médica E a cultura pop! - nos sentimos compelidos a perguntar: “Se você não defende coisa alguma, pelo que cairá?” Características fortes do teste são a base da eficácia diagnóstica de qualquer teste; sem valores preditivos confiáveis, um teste não pode diagnosticar uma doença ou levar a mudanças no tratamento ou nos resultados. Os testes de anticorpos contra COVID-19 atualmente disponíveis não devem ser usados para diagnosticar uma infecção ativa e, na melhor das hipóteses, têm um valor preditivo positivo moderado para o diagnóstico de uma infecção prévia, mas apenas nos pacientes sintomáticos com alta probabilidade pré-teste da doença e, possivelmente, apenas em uma pequena janela após o início dos sintomas (15-21 dias). Você provavelmente pode confiar em um resultado negativo em um paciente com baixa probabilidade pré-teste, mas, caso contrário, os testes de anticorpos têm utilidade limitada como testes remotos, e podem ser mais úteis para fins de saúde pública.

Para mais informações veja o tópico [COVID-19 (novo coronavírus)](https://www.dynamed.com/condition/covid-19-novel-coronavirus?mkt_tok=eyJpIjoiT1RFeU5XTmhPR0UyTXpoaCIsInQiOiJjQWFPeVwvNXNQUCtaTTM3U3pMM2FZSjFVXC9EV3hQYVY3VlNVUEx3WGhyRTRMd2IwUXFhK1RneWtNUFZOWng2Z1dXS1N5b0NcLzY1VnBSQzhHdHdrcHhUQT09In0%3D) na DynaMed.

**Equipe editorial do DynaMed MBE em Foco**

Este MBE em Foco foi escrito por Katharine DeGeorge, MD, MS, professora associada de Medicina de Família na Universidade da Virginia e editora clínica da DynaMed. Editado por Alan Ehrlich, MD, editor executivo da DynaMed e professor associado de Medicina de Família na faculdade de medicina da Universidade de Massachusetts, e Dan Randall, MD, editor adjunto para Medicina Interna da DynaMed.