   # Defina a obesidade, não deixe que a obesidade te defina

 

 

      MBE em Foco - Volume 12, Issue 2 

Referência: [Lancet Diabetes Endocrinol. 2025 Jan 14 early online](https://www.thelancet.com/journals/landia/article/PIIS2213-8587(24)00316-4/abstract?mkt_tok=Njg5LUxOUS04NTUAAAGYvQ3icApRvd1_IiDbGF5EwPxhojMztb7SsZrAJ9_eDEx8NZmT3ay34ZKTPKMeFrjo_jDL78zg3feDX8fDD2d20HXuo-yEs9mRo2v93GKrj3MaI6bY)

**Conclusão prática: Em breve poderemos estar enxergando o diagnóstico da obesidade sob um novo paradigma que exija evidências de comprometimento clínico do funcionamento corporal, além do excesso de adiposidade, mesmo com um IMC "normal".**

**Pérola da MBE: A técnica Delphi é um método usado em vários cenários (economia, saúde, ciência) para se chegar de maneira sistemática a um consenso entre especialistas no campo que estiver sendo estudado. Ele usa respostas anônimas, estruturadas e iterativas a perguntas específicas visando a encontrar campos de concordância.**

Os medicamentos antiobesidade estão em todos os noticiários hoje em dia e são cada vez mais considerados uma opção de tratamento em longo prazo para a doença crônica da obesidade. Para muitos profissionais que estão respondendo à enxurrada constante de mensagens sobre autorizações prévias, restrições de formulários e escassez nas farmácias, o cheiro de uso excessivo está se tornando mais forte a cada semana. Mas, se a obesidade é uma epidemia, como abordá-la por qualquer meio necessário pode ser considerado uso excessivo? Talvez o problema esteja em como atualmente definimos obesidade, que é simplesmente ter um IMC ≥ 30 kg/m2. Mas e se a estrutura conceitual sobre a qual nós (e a indústria farmacêutica) tivermos construído um império antiobesidade for defeituosa? Recomendações publicadas recentemente no *Lancet* por uma recém-criada *Global Commission on Clinical Obesity* propõem um sistema que utiliza tanto dados antropométricos quanto clínicos para separar as pessoas com IMC ou peso corporal elevados em subgrupos clínicos e pré-clínicos com base em novos critérios diagnósticos que incluem evidências objetivas de excesso de adiposidade (o que não necessariamente requer um IMC elevado) E evidências de comprometimento clínico do funcionamento corporal.

A comissão foi composta por 58 especialistas - alguns vivendo com obesidade - que representavam diferentes países e especialidades médicas. O painel foi sistematicamente pesquisado com o uso de uma [técnica Delphi](https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8299905/?mkt_tok=Njg5LUxOUS04NTUAAAGYvQ3ib27W1rteZKRQW7J9M9R00xQZgzBS4ywrnc6uDgSntnqiztb9A0c_QXqQZY3mwSb0y4NTuchJtJZGJN5g5Gks8C69PbNDsMveESZdXKC06_Sa) modificada, com um consenso unânime alcançado em 49 de 82 afirmações e um consenso quase unânime (&gt; 90%) alcançado em 33 de 82 outras afirmações. Esses consensos resultaram na criação de critérios diagnósticos específicos para o diagnóstico de obesidade clínica em adultos, bem como em crianças e adolescentes.

A comissão reconhece que a obesidade é uma condição heterogénea com um espectro de fenótipos. Por exemplo, algumas pessoas com obesidade podem ter problemas de saúde e problemas clínicos devidos somente à obesidade, e algumas pessoas com IMC elevado podem ter funcionalidade e saúde normais durante toda a vida. O quadro proposto pela comissão distingue a obesidade, a obesidade clínica e a obesidade pré-clínica da seguinte forma:

- *Obesidade*: excesso de adiposidade somente, com ou sem comprometimento funcional resultante
- *Obesidade clínica*: excesso de adiposidade resultando em doença sistêmica crônica com disfunção tecidual ou orgânica, ou com limitações nas atividades da vida diária
- *Obesidade pré-clínica*: excesso de adiposidade com função preservada, mas com um risco geralmente maior de desenvolvimento de obesidade clínica e de outras comorbidades

Em poucas palavras, essa mudança não enfatiza o IMC e outros marcadores intermediários apenas, mas em vez disso se concentra nas evidências de disfunções relacionadas ao excesso de adiposidade, permitindo que a prevenção e o tratamento sejam focados nas obesidades pré-clínica e clínica, e não somente na obesidade em si.

Sabemos há muito tempo que o IMC é uma medida imperfeita - seu uso leva a um subdiagnóstico nas pessoas com obesidade sarcopênica (baixa massa muscular, mas alta adiposidade corporal), e a um sobrediagnóstico nas pessoas com corpos musculosos (fisiculturistas). Alguns puristas, no passado, propuseram o uso de medições da composição corporal para diagnosticar a obesidade, mas não existe um método de baixo custo universalmente recomendado para isso. Uma das vantagens desse método recém-proposto é que ele requer a avaliação do comprometimento funcional relacionado ao excesso de adiposidade por meio de critérios clínicos específicos e consistentes. Se usarmos o IMC como um teste de triagem inicial (para indivíduos não gestantes), três grupos de pessoas com IMC elevado podem surgir: atletas musculosos (baixa adiposidade e sem doença), aqueles com alta adiposidade e sem doença aparente (obesidade pré-clínica) e aqueles com alta adiposidade e doença (obesidade clínica). O diagnóstico baseado nessa recomendação de consenso é ao mesmo tempo sistemático e nuançado.

A proposta da comissão, se for adotada, poderá mudar radicalmente a forma como pensamos tanto as populações quanto os indivíduos no que diz respeito à obesidade. Teoricamente ela reduz o subdiagnóstico e o sobrediagnóstico da obesidade, nos permite direcionar melhor as medidas preventivas e terapêuticas e, por extensão, melhora potencialmente os desfechos populacionais. Esse novo modelo de definição de obesidade também pode servir como ponto de partida para reduzir o estigma experimentado por muitas pessoas em torno da obesidade, mudando o foco para o comprometimento clínico e para longe do próprio peso em si. Ah, e isso pode eventualmente levar a um uso mais criterioso e apropriado dos GLP-1s. Portanto, fique atento para observar se as principais organizações que lidam com obesidade adotam essas definições - porque quando definimos a obesidade com uma abordagem holística e diferenciada, podemos finalmente parar de deixar que ela nos defina.

**Equipe editorial do MBE em Foco da DynaMed**

Este MBE em Foco foi escrito por Katharine DeGeorge, MD, MSc, editora adjunta sênior da DynaMed e professora associada de Medicina de Família na Universidade da Virgínia. Editado por Alan Ehrlich, MD, FAAFP, editor executivo da DynaMed e professor associado de Medicina de Família na faculdade de medicina da Universidade de Massachusetts; Dan Randall, MD, MPH, FACP, editor adjunto sênior da DynaMed; McKenzie Ferguson, PharmD, BCPS, redatora médica sênior da DynaMed; Rich Lamkin, MPH, MPAS, PA-C, redator médico da DynaMed; Matthew Lavoie, BA, revisor médico sênior da DynaMed; Hannah Ekeh, MA, editora associada sênior II da DynaMed; e Jennifer Wallace, BA, editora associada sênior da DynaMed. Traduzido para o português por Cauê Monaco, MD, MSc, docente do curso de medicina do Centro Universitário São Camilo.