   # O Poder do Placebo — podem as crenças ajudar a aliviar a enxaqueca?

 

 

      MBE em Foco - Volume 13, Issue 2 

Referência: [JAMA Netw Open. 2025 Oct 1;8(10):e2535739](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41060655/)

**Conclusão prática: A adição de um placebo não mascarado ao tratamento habitual pode melhorar a qualidade de vida, mesmo que não reduza a frequência das crises de enxaqueca.**

**Pérola da MBE: Um estudo com poder estatístico inadequado pode não detectar diferenças reais que existam entre os grupos. Portanto, quando se observam diferenças numéricas, elas devem ser vistas apenas como "interessantes", e não como conclusivas. O estudo deve ser repetido para se confirmarem quaisquer eventuais achados.**

Os placebos são surpreendentemente poderosos, tanto nas pesquisas quanto nos tratamentos reais. [Pesquisas](https://www.harvardmagazine.com/2012/12/the-placebo-phenomenon) mostraram que placebos abertos, ou não mascarados (ou seja, quando os pacientes sabem que não estão recebendo um medicamento ativo), podem induzir mudanças fisiológicas significativas e ser ferramentas terapêuticas poderosas, especialmente quando se trata de sintomas subjetivos como dor ou fadiga.

Placebos não mascarados demonstraram reduzir a dor em pacientes com [dor lombar crônica](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39259542/) e [síndrome do intestino irritável](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35099543/), além de diminuir a fadiga relacionada ao câncer em [sobreviventes de cânceres](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30298411/). As vantagens são óbvias: os placebos não mascarados são éticos, baratos, não causam dependência e são seguros. Eles não curam a doença subjacente, mas podem tornar a vida mais tolerável, pelo menos para algumas pessoas.

Em muitos estudos o placebo aberto é administrado duas vezes ao dia para mimetizar os regimes padrão de administração de medicações, reforçar comportamentos rotineiros e apoiar o condicionamento comportamental clássico (pense nos cães de Pavlov). Acredita-se que as respostas psicológicas e biológicas ao tratamento com um placebo resultem de uma combinação de fatores, incluindo as expectativas do paciente, a relação terapêutica entre paciente e profissional, e associações aprendidas entre tomar comprimidos e sentir-se melhor.

Um [ensaio randomizado](https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12509028/) publicado no *JAMA Network Open* em outubro passado avaliou um placebo não mascarado em 120 adultos com enxaqueca episódica ou crônica. Ao início os pacientes apresentavam uma mediana de 7 a 8 dias mensais de cefaleia, com uma intensidade média da dor de 4 a 5 em 10. Quase todos os pacientes (92%) utilizavam pelo menos um tipo de tratamento não farmacológico, e 34% estavam em uso de medicação preventiva para a enxaqueca. Para começar, todos os pacientes assistiram a um vídeo instrutivo sobre o efeito placebo destacando pesquisas sobre sua eficácia em pacientes com dor crônica. Em seguida, os pacientes foram randomizados para receberem o tratamento habitual ou o tratamento habitual associado a um placebo aberto por via oral duas vezes ao dia.

Após 3 meses, os pacientes no grupo do placebo aberto tiveram menos dias mensais de cefaleia (6 vs. 7 dias) e menos dias em que precisaram de medicação de resgate (4 vs. 5 dias), mas essas diferenças não foram estatisticamente significativas. Por outro lado, significativamente mais pacientes do grupo do placebo relataram uma melhora na qualidade de vida (46% vs. 24%). Curiosamente, e talvez não surpreendentemente, mais pacientes do grupo do placebo relataram efeitos colaterais, provavelmente por efeitos "nocebo", nos quais as pessoas esperam sintomas negativos e depois realmente os experienciam. O ensaio não atingiu a meta planejada de 150 participantes, limitando sua capacidade de tirar conclusões firmes em qualquer direção. O estudo também não relatou a adesão ao placebo.

Então, qual é a lição a ser aprendida? Os placebos abertos podem não reduzir drasticamente a frequência das crises de enxaqueca, mas *podem* fazer as pessoas se sentirem melhor — e isso não é pouca coisa! Curiosamente, a maioria dos estudos sobre tratamentos com placebos abertos têm focado em pacientes com condições dolorosas crônicas e centralmente mediadas. São necessárias mais pesquisas para entender seus potenciais benefícios e riscos em pessoas com sintomas agudos ou não diagnosticados.

Este estudo é um lembrete do poder da conexão mente-corpo e de como a percepção e a expectativa individuais podem moldar a experiência da doença. Do ponto de vista prático, a logística de prescrever e acessar produtos placebo fora dos cenários de pesquisa permanece em grande parte desconhecida, embora tais produtos estejam disponíveis online.

Para mais informações veja o tópico [Profilaxia da enxaqueca em adultos](https://www.dynamed.com/management/migraine-prophylaxis-in-adults#OTHERRX) na DynaMed.

**Equipe editorial do MBE em Foco da DynaMed**

Este MBE em Foco foi escrito por McKenzie Ferguson, PharmD, BCPS, redatora médica sênior da DynaMed. Editado por Alan Ehrlich, MD, FAAFP, editor executivo da DynaMed e professor associado de Medicina de Família na faculdade de medicina da Universidade de Massachusetts; Katharine DeGeorge, MD, MS, editora adjunta sênior da DynaMed e professora associada de Medicina de Família na Universidade da Virgínia; Dan Randall, MD, MPH, FACP, editor adjunto sênior da DynaMed; Claire Symanski, PhD, editora médica e líder da equipe para otorrinolaringologia da DynaMed; Rich Lamkin, MPH, MPAS, PA-C, redator médico da DynaMed; Matthew Lavoie, BA, revisor médico sênior da DynaMed; Hannah Ekeh, MA, editora associada sênior II da DynaMed; e Jennifer Wallace, BA, editora associada sênior da DynaMed. Traduzido para o português por Cauê Monaco, MD, MSc, docente do curso de medicina do Centro Universitário São Camilo.