Dispersando a fumaça: será que a vareniclina ajuda a parar com o "vaping"?

MBE em Foco - Volume 12, Issue 12

Referência: JAMA. 2025 Apr 23:e253810

Conclusão prática: A vareniclina parece ajudar os adolescentes e jovens adultos a abandonarem o hábito de vaporizar nicotina.

Pérola da MBE: Taxas de adesão desiguais, seja pelo motivo que for, afetam a validade do estudo.

Começou como modinha de fazer nuvens de fumaça e rapidamente se tornou um nevoeiro sobre a saúde pública. Os “vapers,” “pods” e cigarros eletrônicos em geral foram inicialmente comercializados como uma alternativa "mais saudável" a fumar cigarros convencionais. Talvez isso tenha sido verdade algum dia, mas para muitos jovens hoje eles são um vício disfarçado de sabores frutados e aparelhos chamativos. Um ensaio clínico recente publicado no JAMA oferece evidências convincentes de que a vareniclina—um medicamento já aprovado pela FDA para a cessação do tabagismo—pode ser uma ferramenta efetiva para ajudar os adolescentes e adultos jovens a pararem de fumar.

Conduzido por pesquisadores do Massachusetts General Hospital, o ensaio se concentrou em 261 participantes com idades entre 16 e 25 anos que vaporizavam nicotina diariamente, mas tinham pouco ou nenhum histórico de uso de cigarro. Os participantes foram aleatoriamente designados para 1 dos 3 braços do estudo: (1) vareniclina com aconselhamento comportamental e suporte por mensagens de texto, (2) placebo com aconselhamento comportamental e suporte por mensagens de texto, ou (3) somente suporte por mensagens de texto. O desfecho primário foi uma abstinência sustentada do vaping, bioquimicamente verificada, durante as semanas 9 a 12 do tratamento com vareniclina.

A vareniclina foi associada a um aumento significativo nas taxas de abstinência contínua em comparação com o placebo (51% vs. 14% durante as semanas 9 a 12, razão de chances [OR] ajustada de 6,5, IC de 95%: 3-14,1) ou o suporte por mensagens de texto (51% vs. 6%, OR ajustada de 16,9, IC de 95%: 6,2-46,3). O desfecho secundário de abstinência contínua das semanas 9 a 24 também favoreceu a vareniclina em relação ao placebo (28% vs. 7%, OR ajustada de 6, IC de 95%: 2,1-16,9) e o suporte por mensagens de texto (28% vs. 4%, OR ajustada de 11, IC de 95%: 3,1-38,8). A vareniclina foi geralmente bem tolerada, sem efeitos colaterais graves relatados. Apenas 3 participantes desistiram devido a eventos adversos e, mais importantemente, não houve evidências de que aqueles que pararam de vaporizar trocaram o hábito pelo uso do tabaco combustível.

Uma limitação deste estudo é a diferença entre as taxas de adesão. Aqueles que tomaram vareniclina tiveram 72,8% de adesão à medicação, enquanto aqueles que tomaram placebo tiveram 63,5% de adesão. Para o aconselhamento, 78,4% do grupo da vareniclina vs. 59,8% do grupo do placebo compareceram a ≥ 80% das sessões de aconselhamento. Até mesmo as mensagens de texto tiveram essa lacuna incomum nas adesões, com 41% aderindo no grupo da vareniclina, 36% no grupo do placebo e 74% no grupo de apoio por mensagens de texto.

Nos ensaios clínicos, taxas de adesão consistentes entre os braços do estudo são importantes para ajudar a garantir que as diferenças nos desfechos sejam devidas à própria intervenção, não a algum fator de confusão conhecido ou desconhecido. Houve outros fatores que obscurecem a validade dos resultados, como a ausência de um mascaramento crível devido aos efeitos colaterais não graves da vareniclina, diferenças basais no uso de cannabis e diferentes incentivos financeiros entre os grupos, além do fato de que foi solicitado um recrutamento voluntário. Embora não necessariamente duvidemos de que a vareniclina possa ser efetiva para a cessação do vaping, estamos menos convencidos de que a magnitude do efeito seja tão grande quanto eles dizem que é. Mas talvez ela seja; A razão de riscos entre a vareniclina e o placebo para o abandono do tabagismo também é da ordem de 2 a 3. Precisaremos somente de pelo menos mais um estudo de maior qualidade que possa replicar esses resultados. Apesar das limitações, essas descobertas sugerem que a vareniclina pode ser um instrumento obrigatório em seu kit de ferramentas para os jovens que usam vapes e estejam considerando parar. Com um perfil de segurança bem estabelecido e a aprovação do FDA já em vigor para a cessação do tabagismo, este medicamento está se mostrando um off-label promissor para ajudar as pessoas que desejam parar de vaporizar a trocar seus pods por algum progresso. A vareniclina não é uma pílula mágica mas, quando combinada com aconselhamento e suporte por mensagens de texto, ela pode ajudar seus pacientes a dissiparem a névoa do vaping para sempre.

Para mais informações veja o tópico Tratamento para o tabagismo na DynaMed.

Equipe editorial do MBE em Foco da DynaMed

Este MBE em Foco foi escrito por Rich Lamkin, MPH, MPAS, PA-C, redator médico da DynaMed. Editado por Alan Ehrlich, MD, FAAFP, editor executivo da DynaMed e professor associado de Medicina de Família na faculdade de medicina da Universidade de Massachusetts; Katharine DeGeorge, MD, MSc, editora adjunta sênior da DynaMed e professora associada de Medicina de Família na Universidade da Virgínia; Dan Randall, MD, MPH, FACP, editor adjunto sênior da DynaMed; Gayle Sulik, PhD, editora médica sênior e líder da equipe de cuidados paliativos da DynaMed; McKenzie Ferguson, PharmD, BCPS, redatora médica sênior da DynaMed; Matthew Lavoie, BA, revisor médico sênior da DynaMed; Hannah Ekeh, MA, editora associada sênior II da DynaMed; e Jennifer Wallace, BA, editora associada sênior da DynaMed. Traduzido para o português por Cauê Monaco, MD, MSc, docente do curso de medicina do Centro Universitário São Camilo.