Referência: JAMA. 2026 Jan 27;335(4):317-325
Conclusão prática: Uma xícara de café por dia parece ser segura para os pacientes com fibrilação atrial, e pode até reduzir sua recorrência após a cardioversão.
Pérola da MBE: Os ensaios pragmáticos provavelmente representam o futuro da pesquisa clínica ao oferecerem menores custos, tempos de execução mais curtos e uma maior aplicabilidade à prática cotidiana.
Um paciente vai ao seu médico reclamando de palpitações. Em nove de cada dez vezes, uma das primeiras perguntas que ele ouve é: "Quanto café você bebe?".
(Uma vez fiz essa pergunta e a paciente respondeu “seis". Eu disse "uau, seis xícaras é muito", e ela respondeu: "Não, seis bules!").
De qualquer forma, há muito tempo se acredita que o café com cafeína é pró-arrítmico, levando muita gente a supor que ele deve ser evitado por quem tem problemas cardíacos. Faz sentido. No entanto, desde então vários estudos não conseguiram demonstrar danos causados pelo café em pacientes com fibrilação atrial (FA), embora a natureza observacional desses achados tenha impedido a maioria dos médicos de aprovarem o consumo de bebidas cafeinadas. Recentemente um grupo de pesquisadores elaborou um estudo pragmático para responder à pergunta "eliminar o café da dieta evita a fibrilação?" —o ensaio apropriadamente denominado DECAF.
Os pesquisadores recrutaram adultos com FA que tomavam café regularmente, tinham uma cardioversão planejada e estavam dispostos a continuarem ou se absterem da cafeína por 6 meses após o procedimento. Imediatamente após uma cardioversão bem-sucedida, 200 pacientes foram randomizados a 1:1 para continuarem consumindo café e outros alimentos ou bebidas com cafeína conforme desejado, ou absterem-se completamente de qualquer cafeína por 6 meses. Os pacientes randomizados para o consumo de café beberam em média cerca de uma xícara por dia, com as outras fontes de cafeína sendo desprezíveis, o que, note-se, está abaixo da média registrada nos Estados Unidos de 14 onças (420 ml) de café por dia.
Este foi um ensaio pragmático. Ou seja, os pacientes foram recrutados a partir de um cenário de assistência clínica rotineira, e a cardioversão e o acompanhamento subsequente da FA foram planejados e pagos por entidades independentes da equipe de pesquisadores. Os pesquisadores entraram em contato com os pacientes a 1, 3 e 6 meses para avaliar o consumo autorrelatado de cafeína e determinar se a FA havia ressurgido. A FA foi diagnosticada pelo cardiologista habitual do paciente e verificada pelos pesquisadores com o uso de ECG padrão, monitor de ECG vestível (como um Apple Watch®) ou dispositivo cardíaco implantável. A maioria dos pacientes teve um monitoramento cardíaco contínuo.
Além da economia de custos e de tempo, os ensaios pragmáticos oferecem maior aplicabilidade no mundo real e facilitam uma tradução mais rápida para a prática clínica rotineira, embora correndo o risco de sacrificar algum nível de validade interna por causa de toda essa flexibilidade extra. Dito isso, os resultados desse estudo foram um pouco surpreendentes. Aos 6 meses, a FA havia recorrido em 47% dos participantes do grupo do café e em 64% dos randomizados para abstinência (razão de riscos: 0,61, IC95%: 0,42-0,89). Também houve numericamente menos eventos adversos, incluindo idas a prontos-socorros, hospitalizações e mortes, no grupo da continuação do café. Na tentativa de justificar esses achados, alguns analisaram as diferenças basais, com o grupo da abstinência tendo numericamente mais pacientes com doença arterial coronariana e histórico de ablação, dois fatores que aumentam o risco de recorrência. Mas os autores fizeram análises de sensibilidade que levaram em conta essas diferenças e obtiveram resultados semelhantes. Outros observam que apenas 69% dos participantes do grupo da abstinência realmente se abstiveram, mas isso pode ser invertido para sugerir que talvez estejamos deixando de observar parte da magnitude da diferença entre os grupos. Os autores citam o bloqueio dos receptores de adenosina induzido pelo café, as propriedades anti-inflamatórias do café e o aumento da energia para se exercitar como possíveis explicações para a redução das recorrências de FA no grupo consumidor de café.
Do ponto de vista clínico, esses resultados sugerem fortemente que devemos parar de aconselhar rotineiramente os pacientes a evitarem quantidades razoáveis de café por medo de que isso desencadeie ou piore a FA. Claro, isso não se aplica aos pacientes que claramente apresentarem sintomas de FA após uma ingestão de cafeína, ou àqueles que bebem 6 xícaras (ou bules) por dia.
De forma mais ampla, este ensaio é um bom lembrete de que o que esperamos com base na fisiologia ou na farmacologia nem sempre corresponde ao que acontece quando intervenções são testadas no mundo real. Essa incompatibilidade é exatamente a razão pela qual as hipóteses precisam ser testadas em ensaios, em vez de serem assumidas como verdadeiras e incorporadas à prática. Ensaios pragmáticos como esse tornam os testes mais rápidos e viáveis ao aproveitarem a assistência clínica rotineira, exigem menos recursos e geram respostas que podem ser aplicadas quase que imediatamente. Em outras palavras, às vezes a melhor maneira de praticar a Medicina Baseada em Evidências é parar de supor e realizar um ensaio.
Para mais informações veja o tópico Fibrilação Atrial na DynaMed.
Equipe editorial do MBE em Foco da DynaMed
Este MBE em Foco foi escrito por Katharine DeGeorge, MD, MSc, editora adjunta sênior da DynaMed e professora associada de Medicina de Família na Universidade da Virgínia. Editado por Alan Ehrlich, MD, FAAFP, editor executivo da DynaMed e professor associado de Medicina de Família na faculdade de medicina da Universidade de Massachusetts; McKenzie Ferguson, PharmD, BCPS, redatora médica sênior da DynaMed; Rich Lamkin, MPH, MPAS, PA-C, redator médico da DynaMed; Claire Symanski, PhD, editora médica e líder da equipe para otorrinolaringologia da DynaMed; Michael Butler, PhD, redator médico na DynaMed; Matthew Lavoie, BA, revisor médico sênior da DynaMed; Hannah Ekeh, MA, editora associada sênior II da DynaMed; e Jennifer Wallace, BA, editora associada sênior da DynaMed. Traduzido para o português por Cauê Monaco, MD, MSc, docente do curso de medicina do Centro Universitário São Camilo.