O Poder do Placebo — podem as crenças ajudar a aliviar a enxaqueca?

MBE em Foco - Volume 13, Issue 2

Referência: JAMA Netw Open. 2025 Oct 1;8(10):e2535739

Conclusão prática: A adição de um placebo não mascarado ao tratamento habitual pode melhorar a qualidade de vida, mesmo que não reduza a frequência das crises de enxaqueca.

Pérola da MBE: Um estudo com poder estatístico inadequado pode não detectar diferenças reais que existam entre os grupos. Portanto, quando se observam diferenças numéricas, elas devem ser vistas apenas como "interessantes", e não como conclusivas. O estudo deve ser repetido para se confirmarem quaisquer eventuais achados.

Os placebos são surpreendentemente poderosos, tanto nas pesquisas quanto nos tratamentos reais. Pesquisas mostraram que placebos abertos, ou não mascarados (ou seja, quando os pacientes sabem que não estão recebendo um medicamento ativo), podem induzir mudanças fisiológicas significativas e ser ferramentas terapêuticas poderosas, especialmente quando se trata de sintomas subjetivos como dor ou fadiga.

Placebos não mascarados demonstraram reduzir a dor em pacientes com dor lombar crônica e síndrome do intestino irritável, além de diminuir a fadiga relacionada ao câncer em sobreviventes de cânceres. As vantagens são óbvias: os placebos não mascarados são éticos, baratos, não causam dependência e são seguros. Eles não curam a doença subjacente, mas podem tornar a vida mais tolerável, pelo menos para algumas pessoas.

Em muitos estudos o placebo aberto é administrado duas vezes ao dia para mimetizar os regimes padrão de administração de medicações, reforçar comportamentos rotineiros e apoiar o condicionamento comportamental clássico (pense nos cães de Pavlov). Acredita-se que as respostas psicológicas e biológicas ao tratamento com um placebo resultem de uma combinação de fatores, incluindo as expectativas do paciente, a relação terapêutica entre paciente e profissional, e associações aprendidas entre tomar comprimidos e sentir-se melhor.

Um ensaio randomizado publicado no JAMA Network Open em outubro passado avaliou um placebo não mascarado em 120 adultos com enxaqueca episódica ou crônica. Ao início os pacientes apresentavam uma mediana de 7 a 8 dias mensais de cefaleia, com uma intensidade média da dor de 4 a 5 em 10. Quase todos os pacientes (92%) utilizavam pelo menos um tipo de tratamento não farmacológico, e 34% estavam em uso de medicação preventiva para a enxaqueca. Para começar, todos os pacientes assistiram a um vídeo instrutivo sobre o efeito placebo destacando pesquisas sobre sua eficácia em pacientes com dor crônica. Em seguida, os pacientes foram randomizados para receberem o tratamento habitual ou o tratamento habitual associado a um placebo aberto por via oral duas vezes ao dia.

Após 3 meses, os pacientes no grupo do placebo aberto tiveram menos dias mensais de cefaleia (6 vs. 7 dias) e menos dias em que precisaram de medicação de resgate (4 vs. 5 dias), mas essas diferenças não foram estatisticamente significativas. Por outro lado, significativamente mais pacientes do grupo do placebo relataram uma melhora na qualidade de vida (46% vs. 24%). Curiosamente, e talvez não surpreendentemente, mais pacientes do grupo do placebo relataram efeitos colaterais, provavelmente por efeitos "nocebo", nos quais as pessoas esperam sintomas negativos e depois realmente os experienciam. O ensaio não atingiu a meta planejada de 150 participantes, limitando sua capacidade de tirar conclusões firmes em qualquer direção. O estudo também não relatou a adesão ao placebo.

Então, qual é a lição a ser aprendida? Os placebos abertos podem não reduzir drasticamente a frequência das crises de enxaqueca, mas podem fazer as pessoas se sentirem melhor — e isso não é pouca coisa! Curiosamente, a maioria dos estudos sobre tratamentos com placebos abertos têm focado em pacientes com condições dolorosas crônicas e centralmente mediadas. São necessárias mais pesquisas para entender seus potenciais benefícios e riscos em pessoas com sintomas agudos ou não diagnosticados.

Este estudo é um lembrete do poder da conexão mente-corpo e de como a percepção e a expectativa individuais podem moldar a experiência da doença. Do ponto de vista prático, a logística de prescrever e acessar produtos placebo fora dos cenários de pesquisa permanece em grande parte desconhecida, embora tais produtos estejam disponíveis online.

Para mais informações veja o tópico Profilaxia da enxaqueca em adultos na DynaMed.

Equipe editorial do MBE em Foco da DynaMed

Este MBE em Foco foi escrito por McKenzie Ferguson, PharmD, BCPS, redatora médica sênior da DynaMed. Editado por Alan Ehrlich, MD, FAAFP, editor executivo da DynaMed e professor associado de Medicina de Família na faculdade de medicina da Universidade de Massachusetts; Katharine DeGeorge, MD, MS, editora adjunta sênior da DynaMed e professora associada de Medicina de Família na Universidade da Virgínia; Dan Randall, MD, MPH, FACP, editor adjunto sênior da DynaMed; Claire Symanski, PhD, editora médica e líder da equipe para otorrinolaringologia da DynaMed; Rich Lamkin, MPH, MPAS, PA-C, redator médico da DynaMed; Matthew Lavoie, BA, revisor médico sênior da DynaMed; Hannah Ekeh, MA, editora associada sênior II da DynaMed; e Jennifer Wallace, BA, editora associada sênior da DynaMed. Traduzido para o português por Cauê Monaco, MD, MSc, docente do curso de medicina do Centro Universitário São Camilo.