Opinião polêmica: precisamos mais de continuidade de cuidados que dos agonistas de GLP-1

MBE em Foco - Volume 13, Issue 1

Referência: Br J Gen Pract. 2025 Jul 31;75(757):e518-e525

Conclusão prática: Defender uma melhor continuidade de cuidados na sua instituição pode salvar mais vidas do que atingir as metas de HbA1c.

Pérola da MBE: Quando uma meta-análise não é possível devido a métodos dos estudos, populações ou medidas de desfechos diferentes, uma revisão sistemática qualitativa ainda pode oferecer bons insights ao identificar, avaliar e sintetizar as evidências disponíveis de forma sistemática.

Define-se uma relação como “um estado de estar conectado”. A relação médico-paciente representa um tipo especial de conexão — uma que, segundo uma recente revisão sistemática com mais de 15 milhões de pacientes, poderia literalmente representar uma questão de vida ou morte.

Isso não surpreende ninguém que já tenha sido parte de um relacionamento desses. Também não vai chocar aqueles que passam pela dificuldade que os pacientes têm em ser atendidos pelo mesmo médico de atenção primária na maioria das consultas ao longo do tempo. O número de pacientes que precisam de consultas continua aumentando, enquanto o número de profissionais capazes de (e dispostos a) prestar atenção primária continua diminuindo, pelo menos nos EUA.

Revisões sistemáticas anteriores que relacionaram a continuidade de cuidados a melhorias nos desfechos dos pacientes não foram específicas para a atenção primária. Uma equipe de pesquisa escandinava conduziu recentemente uma revisão sistemática em larga escala que seguiu um processo pré-definido e transparente para identificar, avaliar e sintetizar todas as evidências disponíveis específicas para a continuidade na atenção primária. De mais de 13.000 estudos identificados, a equipe incluiu apenas 18 que atendiam a critérios rigorosos, representando mais de 15 milhões de pacientes adultos e idosos.

Os estudos incluídos mediram a continuidade com um mesmo profissional de atenção primária por até 15 anos e relataram mortalidade, internações hospitalares e visitas a prontos-socorros. A variabilidade nos índices de continuidade utilizados, bem como as diferenças entre os limiares para uma continuidade mais alta versus mais baixa, impediram a realização de meta-análises. Em vez disso, os autores realizaram uma síntese qualitativa e avaliaram a certeza das evidências para cada desfecho.

Ao longo de todo o corpo de evidências, uma maior continuidade da atenção primária foi associada a uma redução de 10%–15% na mortalidade por todas as causas, a uma queda de 10%–15% nas hospitalizações e uma diminuição de 15%–20% nas idas a prontos-socorros, todas com certeza moderada. Para contextualizar, os benefícios dos agonistas de GLP-1, reduzir a pressão arterial em 10 mmHg e manter a HbA1c abaixo de 7,5% também estão na faixa de 10% a 15% para reduzir a mortalidade por todas as causas. Então -escute-nos sobre isso- imagine um mundo em que tivéssemos continuidade de cuidados E alcançássemos todas as métricas de qualidade mencionadas acima. Nossos pacientes poderiam viver para sempre!

Conseguir e manter a continuidade na atenção primária é, sem dúvida, um dos maiores desafios na área da saúde nos Estados Unidos atualmente. Os profissionais de atenção primária sofrem uma grande parte do impacto do movimento pela qualidade em um sistema de saúde projetado para recompensar uma assistência episódica e procedimental. No entanto, apesar de toda a energia investida para se atingirem métricas de qualidade, talvez devêssemos dedicar a mesma quantidade de esforço à construção de sistemas que honrem os benefícios intangíveis e profundamente humanos das relações de longo prazo entre médicos e pacientes. E o lado positivo não é só para os pacientes: a continuidade também está ligada a uma maior satisfação dos profissionais e a menos burnout. Então talvez não devêssemos apenas imaginar esse mundo. Devemos insistir na criação dele.

Para mais informações veja o tópico Manutenção da saúde geriátrica na DynaMed.

Equipe editorial do MBE em Foco da DynaMed

Este MBE em Foco foi escrito por Katharine DeGeorge, MD, MSc, editora adjunta sênior da DynaMed e professora associada de Medicina de Família na Universidade da Virgínia. Editado por Alan Ehrlich, MD, FAAFP, editor executivo da DynaMed e professor associado de Medicina de Família na faculdade de medicina da Universidade de Massachusetts; Dan Randall, MD, MPH, FACP, editor adjunto sênior da DynaMed; Claire Symanski, PhD, editora médica e líder da equipe para otorrinolaringologia da DynaMed; McKenzie Ferguson, PharmD, BCPS, redatora médica sênior da DynaMed; Rich Lamkin, MPH, MPAS, PA-C, redator médico da DynaMed; Matthew Lavoie, BA, revisor médico sênior da DynaMed; Hannah Ekeh, MA, editora associada sênior II da DynaMed; e Jennifer Wallace, BA, editora associada sênior da DynaMed. Traduzido para o português por Cauê Monaco, MD, MSc, docente do curso de medicina do Centro Universitário São Camilo.