Parceria com farmacêuticos: uma doce receita para uma assistência segura no pronto-socorro

MBE em Foco - Volume 12, Issue 13

Referência: JAMA Intern Med. 2025 Jun 1;185(6):669-678

Conclusão prática: As transições de cuidados lideradas por farmacêuticos no pronto-socorro previnem a recorrência dos eventos adversos relacionados a medicamentos.

Pérola da MBE: O número necessário para tratar (NNT) para prevenir 1 desfecho adverso é calculado como o inverso da diferença do risco absoluto entre os grupos de intervenção e controle.

Curiosidade: foi um farmacêutico (Henri Nestlé) que desenvolveu o processo de condensação do leite usado pelo chocolatier Daniel Peter para desenvolver o primeiro chocolate ao leite sólido em 1875. Uma maravilhosa combinação de talentos!

Mas espere. Há mais que os farmacêuticos podem fazer! Um estudo publicado no JAMA Intern Med apresenta evidências de que as intervenções lideradas por farmacêuticos reduzem os custos e as recorrências após idas ao pronto-socorro por eventos adversos relacionados a medicamentos (MREs). Neste estudo, 345 adultos (idade média de 71 anos) com MREs na França foram randomizados para um programa de transição de cuidados liderado por farmacêuticos ou a assistência habitual. Os MREs incluíram eventos/reações adversas a medicamentos (principalmente não devidas a um uso indevido) e complicações relacionadas a doenças associadas a uma não adesão à medicação. Os exemplos de MREs incluíram a hipoglicemia associada à insulina, disfunção renal relacionada a AINEs e edema pulmonar relacionado a não adesão à terapia diurética.

Neste estudo, a maioria dos pacientes estava tomando de 3 a 10 medicamentos, com cerca de 30% necessitando de hospitalização. Em 96% deles houve uma ligação direta entre o MRE e o motivo da ida ao pronto-socorro. A intervenção concentrou-se principalmente no acompanhamento pós-pronto-socorro. A assistência habitual consistiu na coleta de rotina do histórico medicamentoso realizada por um farmacêutico no pronto-socorro e uma carta pós-alta ao médico de atenção primária do paciente, enquanto o programa de transição de cuidados liderado por farmacêutico adicionou recomendações de manejo detalhadas por escrito e ligações telefônicas pós-alta ao médico de atenção primária e forneceu notificações ao farmacêutico comunitário (esta comunicação acrescentou cerca de 1 hora às tarefas rotineiras do farmacêutico do pronto-socorro). Os pacientes que receberam essa atenção extra tiveram uma probabilidade marcadamente menor de precisarem de outra visita a um pronto-socorro relacionada a MRE pelo mesmo motivo dentro de 6 meses (3% vs. 22% com a assistência habitual).

O conceito estatístico de "número necessário para tratar" da MBE é calculado como o inverso da diferença de risco absoluto entre os grupos de intervenção e controle (ou seja, 22% - 3% = 19%, e depois 1 ÷ 0,19 = 5,26) arredondado para cima. Portanto, para cada 6 pacientes com MRE que a recebem, prevemos que essa intervenção evitaria uma visita repetida nos 6 meses seguintes. As internações futuras relacionadas ao mesmo MRE também foram reduzidas. A equipe do estudo também quantificou a economia de custos e descobriu que os custos médicos relacionados a MREs médios foram menores com a intervenção, o que equivaleu a uma economia de cerca de US$ 1.300.

Em geral, os eventos adversos a medicamentos são subnotificados e não percebidos. Este estudo demonstra que contar com a experiência dos farmacêuticos é uma ferramenta valiosa não apenas para a segurança do paciente, mas também para identificar possíveis novas preocupações de segurança, as quais podem ser escritas como relatos de casos ou usadas para gerar hipóteses para avaliar associações em estudos de caso-controle ou coorte.

Pense nesse tipo de intervenção como a cobertura em um bolo de chocolate - é verdade que é necessário muito trabalho duro para se fazer o bolo em si mas, como acontece na confeitaria, na área da saúde o toque final geralmente também faz toda a diferença!

Para mais informações veja o tópico Prevenção de eventos adversos relacionados a medicamentos em hospitais na DynaMed.

Equipe editorial do MBE em Foco da DynaMed

Este MBE em Foco foi escrito por McKenzie Ferguson, PharmD, BCPS, redatora médica sênior da DynaMed. Editado por Alan Ehrlich, MD, FAAFP, editor executivo da DynaMed e professor associado de Medicina de Família na faculdade de medicina da Universidade de Massachusetts; Katharine DeGeorge, MD, MSc, editora adjunta sênior da DynaMed e professora associada de Medicina de Família na Universidade da Virgínia; Dan Randall, MD, MPH, FACP, editor adjunto sênior da DynaMed; Gayle Sulik, PhD, editora médica sênior e líder da equipe de cuidados paliativos da DynaMed; Rich Lamkin, MPH, MPAS, PA-C, redator médico da DynaMed; Matthew Lavoie, BA, revisor médico sênior da DynaMed; Hannah Ekeh, MA, editora associada sênior II da DynaMed; e Jennifer Wallace, BA, editora associada sênior da DynaMed. Traduzido para o português por Cauê Monaco, MD, MSc, docente do curso de medicina do Centro Universitário São Camilo.